“Parabenizar” ou “dar os parabéns” – qual dos 2 está correto?

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parabenizar
commons.wikimedia.org
E você já deparou no debate sobre a disputa entre “parabenizar” e “dar os parabéns“? Se ainda estivesse às escuras dessa luta entre os falantes da língua portuguesa, não tem como se preocupar porque agora vamos descobrir isso juntos. Vamo nessa?

Antes de começar a falar dessas duas estruturas gramaticais em específico, seria bom a gente se lembrar de que o português é uma língua falada em vários países do mundo, espalhados em quatro continentes. Nesses territórios o idioma chegou em épocas e formas diferentes.

Aqui já temos dois elementos fundamentais para analisar a disputa: o espaço e o tempo.

Esses dois fatores, entre outros, fazem com que a língua seja sujeita à variação diatópica e diacrônica. Peraí, como é que é, chega de palavrões! Calma gente, é mais simples do que parece. Variação diatópica significa que a língua muda através do espaço e variação diacrônica significa que a língua muda através do tempo; é por isso que existem o português europeu e o português brasileiro.

Dito isso, não será estranho entender que quando você precisar “felicitar” alguma pessoa, você dirá “te parabenizo” se você for um falante de português brasileiro, entretanto você dirá “dou-lhe os (meus) parabéns” se tu fores um falante de português europeu. Esse fenômeno de variação linguística entre o Brasil e Portugal não colocaria nenhum problema, mas a luta é muito real!

As queixas começaram quando o termo “parabenizar” (português brasileiro) entrou a fazer parte, cada vez mais, da fala cotidiana e da escrita nas redes sociais em Portugal. Essa chegada do “parabenizar” em Portugal tem um nome e, talvez, mais do que um: contato linguístico.

O contato linguístico acontece quando duas línguas (neste caso duas variedades da mesma língua) se encontram em um dado lugar, o que implica que os falantes da língua ‘A’ começam a recorrer a itens da língua ‘B’ e vice-versa. Esses itens podem ser chamados de estrangeirismos que, neste caso, é um termo engraçado porque a língua da qual estamos falando é a mesma.

Na sociedade cosmopolita em que estamos vivendo hoje, é muito fácil duas línguas se encontrarem graças aos meios de comunicação que a gente tem à mão.

As palavras chaves que se podem encontrar lendo comentários dos falantes zangados com esse estrangeirismo são: ódio, irritação, colonização invertida e facilitação da língua. Em relação ao fato de as pessoas sentirem ódio e irritação em presença de estrangeirismos e “erros gramaticais”, isso é algo que já observei outras vezes. Eu acho que os motivos principais desses sentimentos são dois: o poder das gramáticas e o medo de perder a própria identidade.

Relativamente ao poder das gramáticas, sempre nós deveríamos lembrar que esses livros são códigos prescritivos, em poucas palavras isso significa que foram escritos por pessoas que cristalizaram no papel regras que a gente está forçada a seguir com diligência, como se as gramáticas fossem bulas de remédios; e você sabe que se não seguir o que está escrito em uma bula de remédios você poderia tropeçar nos efeitos colaterais daquele remédio.

Os efeitos colaterais de um uso “errado” da gramática são evidentemente ódio, irritação e todo tipo de emoção negativa. Mas, gente, a língua não é um remédio perigoso, você tem a liberdade de explorar (nos dois sentidos da palavra) a língua e se divertir, só tem que ser respeituos* d* outr*.

As gramáticas deveriam ser códigos descritivos e nos dizer o que acontece de verdade na língua e nos apresentar as várias opções que essa nos oferece.

Pelo que diz respeito ao medo de perder a própria identidade, é bom nos lembrarmos que uma das funções principais da língua é exprimir a nossa própria identidade, seja individual, cultural ou nacional. Ai é verdade que o parabenizar indica claramente que você vem do Brasil e que o “dar os parabéns a alguém” implica tu seres portugues. Mas aqui se trata de deixar às pessoas a possibilidade de escolher.

Pelo que diz respeito ao medo de perder a própria identidade, é bom nos lembrarmos que uma das funções principais da língua é exprimir a nossa própria identidade, seja individual, cultural ou nacional.

É excelente gostar da nossa pátria e fazer tudo que possamos para promovê-la, mas a nossa liberdade acaba onde começa aquela dos outros. E limitar, julgar, sacanear e exprimir raiva face à língua de outrem não é bom. As duas formas linguísticas são diferentes, mas a gente deveria aprender a abraçar esta diversidade que, afinal, é um dos pontos fortes da língua portuguesa. Já a questão da “colonização invertida através da língua”… é como o racismo ao contrário: não existe!

A colonização portuguesa foi um processo historicamente existido, pelo qual cerca de cinco milhões de africanos foram deportados para o Brasil e cerca de cinco milhões de índios foram mortos. A língua portuguesa foi imposta a todos os habitantes da colônia (na verdade não a partir do início) em detrimento de todas as línguas africanas e dos indígenas.

Agora eu acho que dizer que o “parabenizar” é capaz de fazer isso tudo, me parece um exagero, não é mesmo?

Aliás, no Brasil o português europeu ainda está em uma posição de poder em relação ao português brasileiro. Muito embora no Brasil tenham por volta de duzentos e dez milhoes de pessoas, aqueles que realizam um percurso de escolarização têm que aprender o “português padrão”, ou seja a norma linguística de Portugal.

Vamos concluir falando da questão da facilitação da língua. Estamos seguros que as línguas tendem para sua facilitação? Eu não tenho respostas definitivas, mas o simples fato de o “dar os parabéns a alguém” ser uma forma analítica (composta por vários elementos) e o “parabenizar” ser sintética (composto por uma palavra só) acredito ser uma explicação insuficiente para afirmar que o português do Brasil está simplificando a língua.

E minha outra pergunta é: e mesmo que a esteja simplificando, qual o problema?

Eu acredito que quanto mais ricas as nossas línguas, melhor! A minha língua materna, o italiano, dispõe por exemplo de ambas as formas: “fare i complimenti a qualcuno” e complitementarsi” e eu gosto de usar as duas indiferentemente. Em inglês, quando alguém vai embora, você pode dizer “say farewell to somebody” se você for britânico, mas se você for australiano você poderia “farewell somebdy”, que bom, né?

Então eu te parabenizo/dou-te os meus parabéns por ter chegado até aqui!

Saudades… um estado de espírito que não cabe em um só dia e em apenas um idioma. Muito mais do que apenas um vocábulo, é um sentimento universal que deu origem a tantas poesias, lágrimas e promessas e cuja intensidade leva para a dificuldade de lhe criar uma simples definição teórica. Aqui pode ler mais.

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